8.6.10

Branco, sul-africano. E pobre

CIDADE DO CABO (ÁFRICA DO SUL) – Mais difícil do que encontrar um negro rico na África do Sul é encontrar um branco pobre.

Escrito por Fábio Zanini

Ontem topei com um, no assentamento de Blikkiesdorp, a 30 km da Cidade do Cabo, para onde foram removidas pessoas que moravam na região central. Quem está ali tem certeza de que foi vítima de um processo de “limpeza urbana” como preparação para a Copa do Mundo. Este senhor abaixo é um exemplo (foto de Joel Silva/Folha)
Johan Jordaan tem 41 anos, e sua história é cheia de ironias. A começar pelo sobrenome, igual ao do diretor-executivo do comitê organizador da Copa, Danny Jordaan. Mais que isso, Johan é africâner, ou seja, um branco descendente de holandeses. Foram os africâners, cerca de 6% da população sul-africana, que conceberam o odioso regime do apartheid no século passado, embora seja sempre importante ressalvar que não é por que a pessoa é africâner que necessariamente é racista. Johan, ao contrário, vive entre negros, maioria em Blikkiesdorp.
Mas o significado de sua presença ali é fortemente simbólico mesmo assim. “Eu vivia num barraco de lona, num matagal, antes de vir para cá”, diz ele. Hoje Johan habita um barraco de zinco, de 18 metros quadrados.
“As paredes são tão finas que podem ser cortadas por uma tesoura”, diz ele, antes de me provar o que diz praticamente dobrando com as mãos uma placa de zinco.
Não há proteção contra chuva, frio e sol. O assentamento para o qual foi realocado pelo governo fica a 30 km dos empregos mais próximos. Para ele, a vida piorou: continua morando mal, mas agora está longe.
“A Copa do Mundo não significou nada para meu bolso. Só quem se beneficia é a Fifa”, diz ele.
A África do Sul ainda é uma sociedade muito dividida em linhas raciais. A generalização de que brancos vivem bem e negros vivem mal ainda é correta, mas está se tornando cada vez mais uma... generalização. Como prova de que o país está se “normalizando” fala-se muito na classe média negra que surge, e também no punhado de milionários negros (muitos ligados politicamente ao governo). Mas pode-se também ir ao outro extremo, o de pessoas como Johan Jordaan.
Estima-se que 10% dos brancos vivam na pobreza hoje. Entre os negros, é o triplo disso. Desde o fim do apartheid, a desigualdade social aumentou no país. Mais importante do que isso, a África do Sul é um país de grande mobilidade. Muita gente se dá bem, muita gente afunda. No ano passado, com a crise econômica mundial, a economia se contraiu, e milhares de empregos foram perdidos. Ninguém escapou. Nem os brancos.
Esperto, o presidente Jacob Zuma percebeu logo a dimensão do problema e já visitou algumas comunidades de brancos pobres. O risco de que o fato seja visto de forma positiva existe e é grande.
O sentimento revanchista, de celebrar africâners experimentando finalmente a pobreza, não ajuda em nada num país com relação raciais ainda bastante instáveis. Zuma sabe bem disso.



Fonte:penaafrica.folha.blog.uol.com.br/

2 comentários:

  1. Legal o blog cara! Tem bastante coisa interessante...
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  2. nossa,muito interessante,parabéns :)

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