23.4.10

O Sudão e a sombra

Escrito por Fábio Zanini

CARTUM (SUDÃO) – O sudanês tem uma relação interessante com a sombra e a água fresca. Não é difícil entender por quê. Em quase duas semanas no país, transitando entre o centro, o sul e o oeste deste gigantesco país, nunca peguei temperatura abaixo de 40 graus.
Descobri também que o pior sol não é o de meio-dia, como pareceria lógico, mas o do meio da tarde. Às 15h, o calor machuca a pele, e é obrigatório se refugiar numa sombrinha.
Cartum, a capital, é uma cidade brotada no meio do deserto, com poucos espaços para um refresco na moleira. As várias pontes sobre o rio Nilo são uma providencial exceção. No meio do dia, dezenas de pessoas buscam nas sombras formadas às suas margens um descanso.
Alguns sentam em banquinhos improvisados, outros namoram, amigos simplesmente batem papo. A confusão dessa metrópole árabe, congestionada e opressiva, parece estar longe. A praia de sudanês é embaixo de uma ponte.
No Sudão, a água faz as vezes de cafezinho. É sinal de boa educação oferecer ao visitante um copo, uma caneca, uma tigela ou até uma garrafa d´água antes de qualquer conversa séria começar. Ninguém quer saber de chá, café ou suco. É água e ponto.
Em Juba, no sul do país, fui surpreendido ao ser presenteado com uma garrafa de plástico, fechada e provavelmente recém-comprada de um supermercado, por uma deputada que eu ia entrevistar.
Num campo de refugiados em Darfur, foi tocante a cena de um senhor quase sem dentes entrando no seu barraco para pegar uma tigela com água para oferecer a mim e a meu tradutor.
Homens se protegem com um pano branco (que lembra uma toalha) enrolada na cabeça. Mulheres cobrem-se com tecidos coloridos, que protegem do calor e do poeirol. De alguma maneira, todos conseguem evitar que seus miolos derretam.
Eu? Usei um bonezinho e passei protetor solar diariamente. Obviamente, de pouco adiantaram para evitar que a cada final de dia chegasse ao hotel mais parecendo uma uva passa.

Fonte:penaafrica.folha.blog.uol.com.br

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