2.11.09

Um prêmio sem vencedores

por Fábio Zanini

Ficou sem vencedor a edição deste ano de um dos prêmios mais esquisitos já criados. O Mo Ibrahim Prize, inventado pelo magnata das telecomunicações sudanês de mesmo nome, não conseguiu encontrar uma pessoa que preenchesse os pré-requisitos para a bolada de US$ 5 milhões ao longo de dez anos, e depois mais US$ 200 mil por ano pelo resto da vida, para os agraciados. É o maior prêmio individual concedido no mundo (o Nobel agracia o vencedor com “apenas” US$ 1,5 milhão).
O que há de diferente (e polêmico) sobre esse prêmio é que ele é conferido a ex-presidentes africanos que demonstraram ser bons governantes e construtores de sistemas democráticos em seus países. Não há muitos, portanto. Líderes populares que decidem deixar o poder voluntariamente, uma exceção num continente em que um mesmo sujeito passa três décadas no governo, venceram as duas primeiras edições do prêmio: Joaquim Chissano, de Moçambique, e Festus Mogae, de Botsuana.
Em 2009, segundo o comitê que decide quem vence o prêmio, ninguém se destacou. Estranho, tendo em vista que pelo menos dois ex-presidentes deixaram o poder sem resistências nesse período e poderiam perfeitamente se encaixar no critério: John Kufuor, em Gana (cujo partido foi derrotado na eleição presidencial) e Thabo Mbeki, da África do Sul (removido do cargo pelo seu próprio partido).
O comunicado oficial do comitê do prêmio celebra “o progresso feito na governança de alguns países africanos, enquanto nota com preocupação recentes revezes em outros”. Sem grandes explicações, diz apenas que neste ano, o comitê do prêmio considerou alguns candidatos possíveis. No entanto, após uma análise profunda, não foi possível escolher num vencedor”.
Talvez seja uma constatação de que os nobres objetivos do dr. Ibrahim não estejam funcionando. A idéia por trás do prêmio é dar um incentivo a que presidentes e líderes africanos se comportem de maneira razoável. Há os que digam que muito melhor seria aplicar essa dinheirama em projetos sociais que beneficiem mais de uma pessoa. Mas há quem pondere que um presidente que governe de maneira responsável causa muito mais impacto positivo para um país.
O fato é que em 2009, a África continuou a ter problemas de corrupção, golpes de Estado e governos falidos. Mauritânia, Madagascar e Guiné são alguns exemplos. O recado é claro: não será um prêmio, por mais generoso, que mudará de forma artificial problemas estruturais e históricos de um continente.


Fonte:penaafrica.folha.blog.uol.com.br

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