16.1.10

Tragédia num pedaço da África na América

Escrito por Fábio Zanini

É comum definir o Haiti, que sofreu um terremoto de proporções apocalípticas, como um pedaço da África nas Américas. Claro que isso não é feito para elogiar os haitianos, mas para dar uma dimensão do estado de miséria em que vivem.
É triste para a África servir como parâmetro dessa forma, mas convenhamos que o paralelo não é despropositado. No ranking anual compilado pela ONU sobre desenvolvimento humano (o IDH), o Haiti aparece na posição 149 entre 182 pesquisados. Está à frente de 31 países africanos, mas atrás de outros 20. Perfeitamente encaixado no meio da África, portanto.
Há outras ligações óbvias, no entanto. A primeira pode ser vista na cor da pele dos haitianos. Aquele é um país negro, mais negro do que muitos países africanos. A proporção de haitianos afrodescendentes chega a 95% (na África do Sul, só para comparar, é de 80%).
O Haiti, afinal de contas, foi formado em grande medida a partir da importação de escravos africanos pelos espanhóis. Junto com a República Dominicana, com quem divide a ilha de Hispaniola, foi um entreposto do tráfico negreiro.
Lá surgiu a primeira república negra do planeta, mais de um século antes de o processo de descolonização africano do século 20 dar origem a dezenas de Estados negros no mundo. No Haiti, em 1804, uma revolta liderada por ex-escravos conseguiu obter a independência dos franceses.
A partir dos anos 1950, quando os “pais da pátria” africanos precisavam de um modelo para mobilizar suas massas e expulsar seus próprios colonizadores, buscaram-no no exemplo do Haiti.
No Haiti inspirou-se, por exemplo, a “negritude”, um movimento de reafirmação dos valores negros que forneceu uma base moral e teórica para diversos processos de independência africanos. Seu maior expoente foi o poeta e ex-presidente senegalês Leopold Senghor.
Em 2004, no bicentenário da independência, um grande evento foi organizado em Porto Príncipe. Thabo Mbeki, o então presidente da África do Sul, fez questão de comparecer. No mesmo ano, quando Jean Bertrand Aristide foi removido da presidência do Haiti, foi em solo africano que ele buscou refúgio –primeiro, na República Centro-Africana e depois na própria África do Sul, onde vive até hoje.
A bela história política do Haiti espelha o belíssimo processo de independência africano. Mas também é preciso dizer que o paralelo se manteve uma vez amainado o entusiasmo com a liberdade. Os haitianos mergulharam em uma espiral de violência e pobreza, assim como muitos dos novos Estados africanos.
No século 21, haitianos e africanos passaram a dividir um período de relativa estabilidade e reconstrução, após anos de autodestruição. Até, obviamente, que um desastre natural se abatesse sobre o mais africano dos países fora da África.




Fonte:penaafrica.folha.blog.uol.com.br

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