26.11.09

Um Carnaval na Tunísia

Escrito por Fábio Zanini

TÚNIS (TUNÍSIA) - “One, two, three! Viva l´Argelie!”.
Em ritmo cadenciado, hipnotizante, este era o grito, numa mistureba divertida de inglês e francês, que saía da garganta de milhares de jovens ensandecidos com a emocionante classificação da Argélia para a Copa do Mundo da África do Sul. Foi preciso realizar um jogo desempate contra o Egito, em campo neutro (no Sudão) para definir quem se classificaria. No final, 1 a 0 para a equipe de verde do Magreb. O grito de guerra não era a única coisa improvável do evento. O local da comemoração era igualmente estranho. Pois estávamos não em território argelino, mas na vizinha Tunísia, que havia perdido sua própria chance de ir à Copa alguns dias antes, numa vitória para a limitada seleção de Moçambique.
Presenciei a comemoração no último dia 19, no centro de Túnis, a capital da Tunísia. Está certo que ali vive uma grande diáspora argelina, que obviamente não se continha de felicidade, mas deu para perceber uma enorme alegria também dos moradores locais.
Me diga: você sairia às ruas para comemorar a classificação da argentina? Os portugueses celebrariam extasiados um triunfo da Espanha? E os italianos com relação aos franceses? Vizinhos geralmente são rivais amargos no campo do esporte (e em outros campos também).
Como explicar o que aconteceu naquela noite em Túnis, a agradável capital da Tunísia? Como entender o fato de as principais artérias do centro da capital terem sido tomadas por buzinaço e as bandeiras verdes de um país vizinho? Não tenho muito a resposta. O “chamado da tribo” é um ingrediente, obviamente. Em outras circunstâncias, o Egito, rival derrotado pela Argélia, poderia muito bem ter sido o beneficiário da torcida tunisiana. Ambos são países árabes e muçulmanos.
Mas a identidade com a Argélia é mais forte. Ex-colônia francesa, compõe, com a Tunísia e o Marrocos, um triunvirato conhecido como “Magreb” (vem do árabe “ocidente”, em relação à sua localização no oeste do mundo árabe). São países que atuam de maneira muito parecida na esfera política internacional e têm laços culturais, étnicos e históricos fortíssimos, apesar de uma certa heterogeneidade econômica. A Tunísia é muito mais desenvolvida que o Marrocos e, principalmente, a Argélia.
Na cabeça daqueles jovens ensandecidos, portanto, prevaleceu a conclusão de que pelo menos um magrebiano irá para a Copa. De alguma forma, na África do Norte, a solidariedade intratribal fala mais alto. Mas o mistério da alegria na noite de Túnis não se resolve. Afinal, uruguaios e argentinos, ou colombianos e venezuelanos, por exemplo, também são feitos da mesma “costela” cultural e histórica. E estou para ver um comemorando o sucesso do outro...

Fonte:penaafrica.folha.blog.uol

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