19.8.09

A morte do vovô-estudante

Vi essa história no blog Pé na África da Folha Online e achei incrível,resolvi compartilhar com todos que acompanham nosso blog.
por Fábio Zanini

A África tem o maior percentual de notícias trágicas do planeta, mas ouso dizer que também é campeã em históricas comoventes e de superação.
Como não ficar tocado pela trajetória de Kimani Nganga Maruge, que morreu aos 90 anos no Quênia? Ele era considerado o aluno de primário mais velho do mundo. Começou os estudos em 2004, aos 84 anos de idade, quando se matriculou na primeira série na cidade de Eldoret, no oeste do país.
Já era um bisavô, e sua figura usando shortinho, camisa e blusão do uniforme escolar ao lado de colegas oito décadas mais jovens o transformou numa celebridade instantânea (foto do Daily Nation).


Chegou a ser convidado para visitar os EUA, onde fez um apelo para que os líderes mundiais dessem prioridade à educação.
A história do vovô é ainda mais incrível porque ela se encaixa perfeitamente em momentos-chave da trajetória de seu país. Como se fosse um Forrest Gump africano, passeando sem querer pela história.
Nos anos 50, o jovem Maruge fez parte do movimento dos Mau-Mau, ponta de lança da revolta de seu país contra a colonização britânica. Temidos e por vezes sanguinários, os Mau-Mau deixaram sua marca na história como um dos mais exitosos movimentos de independência da África. Tornaram-se um farol para outras guerrilhas semelhantes do Terceiro Mundo.
O tempo passou, veio a independência e a desilusão. Havia liberdade, mas que não veio acompanhada pela prosperidade prometida. Maruge isolou-se numa pequena propriedade rural, sem nunca ter tido a oportunidade de estudar. Teve cinco filhos e 30 netos.
Em 2003, após o fim de uma longa ditadura, o Quênia renasceu oferecendo novas oportunidades. Um dos primeiros atos do novo governo foi declarar que haveria educação universal gratuita para a população. Vovô Maruge viu ali sua chance.
Pediu para ser devidamente alfabetizado (tinha aprendido por conta própria a ler algumas partes Bíblia apenas) e para estudar matemática. Não queria ser enganado por comerciantes inescrupulosos e nem pelo governo, notoriamente corrupto.
No final de 2007, novamente sua história e a do Quênia se encontraram. Sua cidade, Eldoret, foi a mais atingida por violentos conflitos étnicos após uma eleição disputada. Morreram mais de mil pessoas, e incontáveis casas foram destruídas. Inclusive de Maruge. Obrigado a procurar refúgio, teve de abandonar momentaneamente os estudos.
A violência passou e ele, já beirando os 90 anos, não desistiu. Retomou o curso e estava a dois anos de terminar o primário quando foi diagnosticado com câncer. Foi finalmente vencido hoje.
A história de Kimani Nganga Maruge é um caso célebre, mas há outros exemplos diários de superação. Ruandeses capazes de atos inacreditáveis de reconciliação após o genocídio; zimbabuanos que levantam cedo todos os dias para procurar emprego apesar do derretimento da economia; sul-africanos acolhendo órfãos da Aids.
A história do velhinho daria um filme. Não duvido que ainda vai virar.

Fonte:penaafrica.folha.blog.uol.com.br

2 comentários:

  1. Orra que historiaa...

    "educaçao nao transforma o mundo, pessoas transformao o mundo, educaçao transformao pessoas" e essa pessoa mudo uma parte do mundo...

    impressionante...

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  2. Grande exemplo de dedicação e força de vontade!!!

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