7.1.11

A Morte e o escritor

Mais um história do Livro "Contos de Morte Morrida". O que vou postar hoje é a apresentação do livro: A Morte e o escritor. É um pouco grande mas é bastante interessante, vale a pena ler!

A Morte e o escritor
Há muito tempo, faz duas horas, quando os bichos falavam, um escritor começou um livro difícil. Primeiro, porque era sobre um assunto de que ele não sabia patavina. Depois porque, ao se sentar em frente da escrivaninha, viu a sombra de alguém encapuzado, segurando uma gadanha, se estender sobre o monitor do micro e a parede.
- Continue - uma voz disse atrás dele. - Você ainda tem um tempinho.
Mesmo tremendo, o escritor começou a primeira história. Escreveu uns quatro, cinco parágrafos, daí parou.
- Não vai continuar?
- Só amanhã.
- Mas preciso levar você.
- Então não vai saber o final da história.
Depois de um silêncio, a voz continuou:
- Vamos fazer um trato. Eu levo você só depois que terminar a história.
- Mas eu queria escrever várias.
- Todas a meu respeito?
- Todas.
- Vou pensar. Se eu ficar curiosa, quero ver as outras.
- Posso pedir um favor? Não sei escrever com alguém lendo por cima do meu ombro.
- Você está querendo demais.
Então o escritor teve de trabalhar com a Morte lendo por cima do ombro dele. nunca teve coragem de se virar para olhar para ela. No máximo espiava a sombra na parede.
Ele não pediu nenhuma dica para os enredos, mesmo estando louco de vontade. Ela nunca reclamou das palavras que ele botou em sua boca, nem das cenas que a fez, digamos, viver. Daí que ele não tem a menor idéia do que ela achou do livro.
No último dia, ao começar a escrever a apresentação, ele puxou conversa:
- Suas histórias não são muitas.
- Não?
- Pelo menos eu não encontrei. Histórias de verdade, com começo, meio e fim, são muito poucas. O resto são episódios soltos.
- É. Mas tem uma coisa. Que você arrume começo, meio e fim para episódios soltos, eu entendo. Mas porque alterou histórias inteiras, algumas famosas, escritas por grandes escritores?
- Não é ótimo? Agora temos duas histórias, em vez de uma.
- Mas essa liberdade, se são narrativas do folclore...
- É aquele negócio, quem conta aumenta um ponto, ou diminui. sempre foi assim. Os escritores pegam as versões orais e as modificam, conforme suas intenções, seu talento ou falta dele. Aí elas caem de novo na boca do povo. Mas, de um livro pra outro, às vezes ficam irreconhecíveis.
- Mas tem uma história que, apesar do capuz e da gadanha medievais, não me lembro de ter visto antes.
- Nem vai lembras.
- quer dizer...
- Inventei todinha. Por favor, não diga pra ninguém. Quem descobrir qual história é bom descobridor será.
A Morte respondeu a pergunta:
- Como descobriu que eu nunca me sento?
- Não descobri. Advinhei.
- Bem - a morte disse depois de um silêncio -, terminando a apresentação, podemos ir.
- Queria dizer mais uma coisa. Não sei se você notou, mas, ao contrário de muitos outros contadores de história, não pintei você como malvada, feito vilã de novela de televisão, nem botei você dando gargalhadas estrondosas como cientistas malucos. Achei que você ficava melhor na foto de um modo mais neutro, mais profissional, digamos. Com uma certa dignidade. Dignidade, não solenidade, que pra solenidade não estou nem aí.
A Morte não disse nada. A sombra dela, na parede, estava imóvel, perfeitamente imóvel. Então o escritor se virou e a encarou:
- Está na hora?
- Está.
- Imagino que você não vai me dizer pra onde vamos nem o que há por lá.
- Não adiantaria de nada, meu caro. Ninguém está preparado pra isso.
- Só mais uma coisa. Meu epitáfio. Não quero nada choroso, nem metido a poético. Quero aquele velho epitáfio da piada.
- Qual?
- "Aqui jaz Ernani Ssó, contra a vontade".

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