22.7.09

O coração de Little Havana divide-se sobre abertura a Cuba


"Vou-lhe explicar a quem interessa a abertura", oferece a sexagenária por trás do balcão das flores do mercado Los Piñarenos, intrometendo-se na "entrevista" de Félix Ramirez sobre as novas medidas da Administração Obama dirigidas à comunidade cubano-americana: o fim das restrições de viagem à ilha e envio de remessas para os cidadãos com dupla nacionalidade, bem como a reabilitação do sistema de telecomunicações para Cuba.Félix já puxara duas cadeiras, e prestara-se a contar tudo sobre a sua vida em Cuba e na América, oferecendo todo o seu tempo para a réplica à interpelação inicial. Na Little Havana da cidade de Miami, é assim: a vida corre com tempo, as pessoas sentam-se a conversar, em voz alta, sem particular preocupação com horários e menos ainda com sensibilidades. Aqui é pão-pão, queijo-queijo."Esta abertura só interessa aos Castros, que ficam com 30 por cento das divisas que levamos para a ilha", reclama a senhora, exaltada. "A mim não me apanham lá. Podem facilitar o que quiserem que eu não vou", garante.Desde que entrou em vigor o novo regime, em Abril, as viagens para Cuba a partir de Miami dispararam. Uma mão-cheia de pequenas companhias aéreas, fundadas nos anos 70, exploram um oligopólio de voos charter que descrevem como "humanitários" mas cujos preços, inflacionados pelas lei da oferta e procura, já ultrapassaram a barreira dos 500 dólares. "Imagine-se, pagar 600 dólares por um voo de 45 minutos", queixava-se um dos passageiros no aeroporto internacional de Miami, antes da partida para Havana.Segundo calcula John Cabanas, da C&T Charters, que voa para Cuba desde 1991, se o ritmo se mantiver, o seu negócio deverá crescer dos 15 mil passageiros anuais para mais de 50 mil. É verdade que os preços são altos, admite o empresário, mas é porque a indústria é "muito controlada": por exemplo, o Governo cubano cobra entre 100 a 130 dólares de direitos de aterragem e serviços de aeroporto por passageiro. "Negócio é negócio, mas o nosso tem sempre uma vertente política", frisa.Enrique Diaz, que fugiu de Cuba há 48 anos, deverá aproveitar as novas facilidades para voltar a ver a ilha. "Não me agrada o que seja dar a mão a esse senhor [Fidel Castro], e isto só vai dar abertura para que ele tenha mais dólares", refere. Mas agora que está reformado, e pensa que pode não viver muito, Enrique está mais sentimental: gostava de rever a casa onde cresceu em Havana. "O que me contam enche-me de pena. Era uma casa linda, cheia de azulejos, só quartos tinha seis. Parece que está tudo desfeito, mas não admira, quando as pessoas não têm meios para cuidar de nada é o que acontece", nota.Por sentimentalismo ou por pragmatismo, as opiniões da comunidade cubana exilada nos EUA - estimada em 1,5 milhões de pessoas - têm vindo a matizar-se. A postura antidiálogo, outrora irredutível, evoluiu para uma atitude de maior aproximação. "Estou de acordo com o diálogo, é bem melhor que a guerra. Obama diz que quer falar com o Irão, a Coreia do Norte, está certo. Se terminar o bloqueio a Cuba, Castro fica sem nada a que se agarrar", comenta. "Obama tem boas intenções, mas não está preparado para o trabalho que conseguiu", contraria Enrique Diaz. Alguns observadores assinalam as diferenças geracionais, com os mais velhos a defenderem arreigadamente o isolamento e sanções contra o regime e os mais novos a favorecerem maior abertura, que permita contactos familiares e comerciais. Nas sucessivas vagas que chegam a Miami, as razões para a imigração são muito distintas: os que vieram com o fracasso da Baía dos Porcos, em 1961, fizeram-no por razões políticas; os que chegam agora vêm por motivos económicos.Félix teria ficado em Cuba se pudesse trabalhar tranquilamente. Mas "tudo o que fazia era ilegal", conta - passear turistas no seu automóvel, vender produtos de mercearia ou de electrónica contrabandeados... "Em Cuba, o roubo está institucionalizado. Senão não existiria comércio." A segunda vez que foi preso por "estar a trabalhar" foi a gota de água para Félix. Resolveu juntar-se aos familiares que já tinham escapado para Miami. "Em Cuba vivia hipertenso, aqui estou tranquilo. Em dois anos, a polícia nunca me parou, e as leis são bem mais rígidas", nota. "Eu fui dos que comprou a conversa da revolução. Lutei por ela, acreditei. Repeti que era o imperialismo americano a causa da pobreza da América Latina. Mas aqui aprendi outras coisas. Sim, houve exploração. Mas hoje Cuba é pior do que o Haiti!""Não há aqui [em Miami] ninguém que tenha vindo por vontade", afiança Guillermo Ramos, que com os seus três irmãos gere o Cuba Ocho, um centro de música e artes visuais em Little Havana. "As pessoas vêm para cá porque é fácil, porque aqui podem ter uma vida normal e um bom futuro", prossegue. "Mas todos vivemos na ilusão de que um dia haja uma surpresa, que aquilo mude e a gente possa voltar, montar um negócio, ajudar ao progresso...""Aqui também não é só maravilhas, há muitos problemas", reconhece Ramos, que está nos EUA há 15 anos. Em Havana estão dois dos seus filhos, ainda não convencidos das vantagens da imigração. "Por mais trabalhadores que sejam, não podem ter uma subsistência normal", considera o pai. "Os Castro transformaram Cuba num país de escravos. Tudo é crise e vigilância. E eles fazem uma vida de príncipes enquanto o pessoal vive na miséria", critica.

Contra os dogmas

Quem não alinha nesta conversa é Elena Freyre, a presidente da Fundação para a Normalização das Relações EUA/Cuba e proprietária de uma galeria de arte na Calle Ocho, a artéria mais cubana de toda Miami. Ao contrário da esmagadora maioria dos exilados da sua geração, não é uma anti-castrista empedernida, apesar de distinguir as falhas fundamentais do regime. As suas raízes são de oposição a Fidel - o seu pai, diplomata, foi forçado a sair do país e chegou a fazer espionagem para a CIA. Apesar de crescer entre os expatriados, Elena sempre pensou em si como uma americana, até ao dia em que se mudou para o Michigan. "Era tanto frio que eu acordei: talvez não seja tão americana assim...", brinca. Nos anos 80, o seu envolvimento com a comunidade académica dos estudos cubanos foi crescendo, e em 1998, quando o Papa João Paulo II visitou Cuba, decidiu que não podia perder a oportunidade de regressar ao país de onde saíra há 40 anos. "Quando vi os efeitos do embargo, pus-me de joelhos a chorar e pedir perdão", recordou, lutando para conter as lágrimas. "Não podia deixar de pensar que nós, os exilados, fomos também responsáveis." No regresso, começou a trabalhar com o Cuban Committee for Democracy e criou a fundação, que defende o reatar de ligações diplomáticas, económicas e culturais, que continuam reféns de "mal-entendidos e dogmas políticos irracionais".Elena vai a Cuba frequentemente e diz que de todas as vezes vê mais mudanças: "Os autocarros agora são todos modernos", assinalou. E está confiante que a mudança de atitude na população americana encorajará medidas mais ambiciosas da Administração Obama. "Mas no que diz respeito à liberdade de expressão, aos direitos de associação, aí é onde se traça a linha", reconhece. Uma sondagem entre os eleitores registados nos cinco distritos congressionais do sul da Florida, encomendada pela sua organização, revela que 24 por cento opõe-se fortemente ao embargo, contra 14 por cento que fortemente a apoia (e 32 por cento não sabe ou não responde). Entre as gerações mais jovens, cresce o apoio a uma maior abertura, como a defendida por Barack Obama.

Texto de Rita Siza, publicado no site Publico.pt

2 comentários:

  1. concordo contigo sobre o rock onde o CORVO comentou não que roqueiros sejam a execeção, os mais inteligentes, mas repare no rock quase todo roqueiro toca um instrumentos, se não toca compõe e quase sempre canta, agora olha no pop p vocal sempre é editado, ninguem escreve as proprias musicas o talento deles é mexer a bunda e falar BABY ahg me tapei de nojo!

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  2. olá! tem um selo e um desafio pra vc!! passa lá!
    Good Look!

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